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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Viajando quase 4.000 quilômetros de Fusca de Minas a Santa Catarina

 


Confira as fotos de Júlia Batista (Tuta) no final deste texto. 

Algumas fotos foram atualizadas com I.A.


Em janeiro de 1989, em pleno verão, realizei uma empreitada automobilística de Itabirito, centro de Minas Gerais (minha terra natal), até o sul do país, ao lado de minha tia e madrinha Terezinha Gonçalves e de minha querida amiga Júlia Batista, a Tuta. A ideia original era chegar até Gramado, no Rio Grande do Sul. Um precioso detalhe: de Fusca!

Eu tinha um fusquinha branco, ano 1981, em bom estado. Mandei fazer uma revisão geral para evitar problemas. Afinal, o trajeto cumpriria cerca de 4.000 km, ida e volta.

 

Os primeiros sinais de que não seria fácil

O carro, no entanto, começou a dar sinais de desgaste já em Pouso Alegre, no sul de Minas, com menos de 400 quilômetros desde o início da viagem. A duras penas, chegamos a Vinhedo, no interior de São Paulo, próximo a Campinas, onde viviam Valéria (irmã de Tuta) e Paulo, seu marido. Lá passamos alguns dias, enquanto o carro era novamente revisado em uma oficina local.

O mecânico constatou que o motor estava superaquecendo. Trocou algumas peças, refez a revisão geral e afirmou que o fusquinha já estava pronto para enfrentar a nova etapa da viagem.

 

A temida Régis Bittencourt

E lá saímos em direção à BR-116 (Rodovia Régis Bittencourt), naquela época conhecida como a Rodovia da Morte. A estrada ligava São Paulo a Curitiba. Logo verificamos o porquê do apelido. Com apenas duas pistas e quase sem acostamento, trafegar por ali era uma luta constante com carretas gigantescas. Em determinado momento, vinham vários caminhões na contramão, e tivemos de jogar o fusquinha no acostamento para nos livrar de uma batida que poderia ser fatal.

 

Estradas alternativas, chuva e oração

Ainda no estado de São Paulo, fizemos um desvio por uma estrada que passava por Sorocaba e outras cidades próximas, com a intenção de fazer parte do trajeto fora da Régis Bittencourt. Se, por um lado, as estradinhas estavam menos movimentadas e eram muito bonitas, por outro, apresentavam muitas curvas, o que aumentou sensivelmente a duração da viagem. Era janeiro e, por isso, chovia muito em alguns trechos.

Muito religiosa (e, com certeza, apavorada com a situação), minha tia Terezinha por vezes puxava um terço, quase sussurrando as orações, como forma de enfrentar o perigo. E lá vinham o “Pai-Nosso”, a “Ave-Maria” e o “Credo”. No final das contas, acabamos aprendendo e rezando algumas partes com ela.

 

Curitiba: capô aberto e alertas na estrada

Faltando pouco para chegar a Curitiba, o Fusca começou a falhar novamente. Descobrimos que, quando abríamos a tampa do motor, o vento externo ajudava a refrigerá-lo e, assim, o carro não morria. Fomos até a capital paranaense com o capô levantado, sem maiores problemas. No entanto, a maioria dos motoristas que nos ultrapassava nos alertava sobre a abertura por meio de buzinas e sinais. E nós agradecíamos o insistente “aviso”. No final, já achávamos engraçada a situação.

No Paraná, fizemos uma parada em Curitiba, onde nos hospedamos. A ideia era conhecer um pouco da capital e, depois, pegar o trem turístico que ligava a cidade ao município de Morretes. Esse trecho ferroviário é reconhecido como um dos mais belos — se não o mais belo — do país.

 

O trem da Serra do Mar

O trem sai da estação de Curitiba bem cedinho, antes do café da manhã, com o objetivo de chegar a Morretes por volta do horário do almoço. São quatro horas e meia de viagem, atravessando a Serra do Mar, em uma paisagem de tirar o fôlego, entre cachoeiras, matas virgens e alguns desfiladeiros impressionantes. O visual é incrível.

No interior dos vagões, havia uma briga constante para se ter acesso às janelas mais panorâmicas, de onde se podiam obter as melhores vistas. Naquela época (não sei como é atualmente), havia vendedores de alimentos no trem, muito assediados, pois todos estavam sem se alimentar desde cedo.

 

Morretes e o inesperado “tempero” do barreado

Passado o deslumbre do caminho férreo, chegamos a Morretes (PR), cidade do famoso barreado, um prato típico local. Obviamente, queríamos experimentá-lo, mesmo sem saber exatamente do que se tratava. Em resumo, trata-se basicamente de carne cozida e desfiada com farinha de mandioca, entre outros ingredientes.

Quando o prato chegou, descobrimos que não era um alimento adequado ao verão, pois era servido quentíssimo. Como a temperatura já estava muito alta, suamos para dar conta do recado. Em determinado momento, Tuta encontrou um fiapo de “carne” amarelada. E veio outro, e mais outro... Não deu outra: era cabelo. E cabelo louro! Foi aí que descobrimos que uma das cozinheiras era uma típica lourinha do sul do Brasil e que, com certeza, seus cabelos dourados estavam proporcionando um “sabor especial” àquela iguaria. Levamos tudo na esportiva e morremos de rir da situação, pois nem se falava em touca naquela época.

 

São Francisco do Sul: pousada, lesmas e pernilongos

De Morretes, pegamos o Fusca novamente e fomos para Santa Catarina, mais especificamente para São Francisco do Sul, cidade histórica portuária na divisa com o Paraná. Lembro que não existia internet e muito menos sites de busca de hotéis. Assim, a norma era chegar à cidade e procurar um lugar para ficar. Já era noite quando chegamos, sem saber onde pernoitaríamos. Depois de procurar em vários locais, encontramos quase todos lotados. Finalmente, conseguimos uma pousada não muito atraente, mas que serviria como solução, pelo menos naquele momento, pois já estávamos cansados pela viagem e pela busca.

Ficamos em dois cômodos canhestros que, em breve, descobrimos estar cheios de lesmas, daquelas que ficam se arrastando pelas paredes. Então, juntamos as camas no centro do quarto para não sermos abordados por aquelas criaturas enquanto dormíamos. Mesmo assim, deixamos as luzes acesas para evitar quaisquer problemas.

Como o calor era intenso e não havia ar-condicionado nem mesmo um ventilador, resolvemos abrir as janelas. Nesse momento, todos os pernilongos do mundo invadiram os cômodos. Tentei eliminá-los com uma camiseta, mas foi em vão.

Quando pensávamos que nada poderia piorar, descobrimos que o local era uma “casa de tolerância”, vulgo prostíbulo. A movimentação durante a noite era intensa nos outros quartos, com entradas e saídas de casais a todo momento. Resumindo: não dormimos nada e acordamos completamente exaustos!

Depois de dar uma volta por São Francisco do Sul para conhecer um pouco da arquitetura local, partimos para Joinville, cidade maior e com mais recursos. O objetivo era encontrar um hotel com ar-condicionado e, pelo menos naquela tarde, dormir até recuperar as energias para retomar a viagem.

 

Joinville e o choque cultural gastronômico

Foi em Joinville que tive meu primeiro contato com a comida alemã. Foi um desastre! Quando o prato chegou, com aquele pé de porco, eu não conseguia nem olhar. Além disso, o chucrute tinha um cheiro muito forte e azedo. Enjoado como sou, não consegui comer nada.

 

Percorrendo cidades catarinenses

Nos dias seguintes, passamos por várias cidades catarinenses: Blumenau, Pomerode, Florianópolis e, claro, várias belíssimas praias daquele litoral, até chegar a Laguna, quase na divisa com o Rio Grande do Sul.

Devido aos constantes problemas mecânicos no carro, resolvemos que ali seria a parada final da viagem, antes do retorno. Não seria prudente subir a serra gaúcha naquelas condições.

 

Laguna: serenidade e história

De Laguna, a lembrança é de que foi um dos lugares mais serenos por onde passamos em toda a viagem. Conseguimos um hotel que ficava em um morro, de onde se podia apreciar uma bela vista do mar. Eram chalés de madeira, simples, mas confortáveis, adequados àquele tempo em que não tínhamos muito dinheiro para investir em hospedagem. Dali se via o pôr do sol, os golfinhos que costumam se aglomerar na orla lagunense e o mar.

A cidade é terra natal de Anita Garibaldi (1821–1849), uma mulher de grande importância na história nacional. Apesar de ter morrido muito jovem, viveu uma vida revolucionária, atuando na Revolução Farroupilha. Foi casada com Giuseppe Garibaldi (1807–1882), com quem lutou pela unificação da Itália. Assim, tornou-se heroína tanto no Brasil quanto no país europeu.

 

O retorno e o susto final

Não me lembro de mais nada, além do fato de que, na volta, depois de deixarmos Tuta em Belo Horizonte, onde morava na época, Terezinha e eu tomamos o rumo de Itabirito. Na estrada, não sei se por cansaço ou outro motivo, quase joguei o pobre fusquinha sobre o canteiro central da rodovia. O carro rodopiou e quase capotou, mas logo retomei a direção e, felizmente, conseguimos finalizar o trecho final sem novo incidente.

 

Slides, memórias e afetos

Atualmente, vasculhando minhas gavetas, encontrei slides (isso mesmo, slides!), que era como Tuta revelava suas fotos naquela época. Adquiri um equipamento que faz a leitura e os transforma em imagens digitais. Assim, as imagens dessa viagem voltaram à tona, vívidas e emocionantes.

Foi a única viagem que fiz com minha tia Terezinha (1931–1991), naquela época já com problemas de saúde que a levariam poucos anos depois. Confesso que não sei como ela sobreviveu a tantos percalços. No entanto, hoje, as imagens e as memórias reverenciam aquela que foi uma das pessoas fundamentais para a minha formação humana e acadêmica. Sua coleção de livros, seu tino de pedagoga e seu olhar terno de madrinha ajudaram a me tornar quem sou. Foi ela quem me apresentou as histórias em quadrinhos, que muito me ajudaram a amar a leitura.

De Tuta, companheira de longas viagens e de muitos papos e conversas, ainda me encontro sempre que posso: ela em Itabirito, eu em Belo Horizonte. E, todas as vezes, parece que não deixamos de nos ver sequer por um dia. As conversas fluem, as risadas são retomadas e as lembranças afloram.

 

Um tempo de ingenuidade e muita ousadia

Registro esses momentos eternos em minha memória como um tempo, de certa forma, ingênuo, mas também de grande ousadia. Considero-me um viajante, e essas primeiras experiências me marcaram profundamente.


No litoral catarinense

Joinville

São Francisco do Sul

No restaurante alemão, com Terezinha

Com Terezinha em Pomerode (SC)

Edifício histórico em Laguna (SC)

Com Terezinha e Tuta, no hotel em Laguna (SC)

São Francisco do Sul

Tentanto consertar o Fusca

Em Pomerode (SC)

Desmaiados em Joiville, depois da noite caótica em SC

Área de restaurantes em Pomerode (SC)

O incêndio do Palácio das Artes em 1997: eu estava lá!

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