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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O incêndio do Palácio das Artes em 1997: eu estava lá!

 

Palácio das Artes em chamas (foto de Paulo Lacerda)

Grande Teatro depois da reforma (foto divulgação)


Quando a cidade acordou em chamas

No dia 7 de abril de 1997, Belo Horizonte amanheceu sob o peso de uma tragédia cultural. A notícia correu como um raio: o Grande Teatro do Palácio das Artes estava em chamas. Para quem vive arte, memória e afeto pela cidade, não era apenas um prédio que ardia — era um símbolo em perigo.

Hoje, pouca gente se lembra daquele episódio. Mas eu lembro como se fosse ontem. Naquele momento eu trabalhava na Fundação Clóvis Salgado, que administra o Palácio das Artes, como assessor de Comunicação. Mal sabia que aquele ano testaria meus limites profissionais e emocionais.

 

Um jornalista diante de um desafio gigante

Minha trajetória no jornalismo havia começado em 1989, na Prefeitura de Itabirito. Em 1997, eu ainda era relativamente novo na Fundação Clóvis Salgado, recém-chegado e cheio de expectativas. Minha missão era divulgar a vida pulsante do Palácio: os corpos estáveis — companhia de dança, orquestra e coral lírico —, as programações do Grande Teatro, da Sala Juvenal Dias e do Teatro João Ceschiatti, além das galerias, do Cine Humberto Mauro e do Cefar.

Mas a realidade não era simples. A instituição enfrentava salários baixos, excesso de trabalho e a chegada forçada de funcionários da extinta MinasCaixa, muitos sem vínculo afetivo ou vocação para aquele universo artístico. Era um ambiente tenso, porém vibrante.

 

Obras, expectativas e o imprevisível

Pouco depois da minha chegada, o Grande Teatro entrou em reformas para sediar o Encontro das Américas, evento que reuniria representantes de 34 países. O governo mineiro depois transferiu o encontro para o Minascentro.

O incêndio rompeu qualquer previsibilidade. Até hoje não se sabe ao certo o que aconteceu: falaram em marmita aquecida por um pedreiro; falaram em curto-circuito. A destruição foi tão extensa que o laudo pericial não conseguiu apontar uma causa definitiva.

 

No olho do furacão: a imprensa

De repente, minha sala virou sucursal das redações. Repórteres de jornais, rádios e TVs se amontoavam ali todos os dias, famintos por informação. Meu papel era mediar, checar fatos com a direção e repassá-los à imprensa — tudo sob a sombra das decisões do governo estadual, administrador do Palácio.

Foi um período de desgaste extremo. Aos poucos, porém, o assunto foi saindo das manchetes e as obras de reconstrução começaram.

 

O que o fogo levou — e o que salvou

O incêndio devastou quase tudo. Mais de 1.600 lugares da plateia e todo o telhado vieram abaixo. Nada sobrou.

No entanto, o palco foi preservado graças a uma porta corta-fogo, que salvou a parte mais complexa do teatro.

Arte resiste: o Foyer vira palco

Com o Grande Teatro interditado, o Foyer virou palco improvisado. Ali montaram uma estrutura e cerca de 400 cadeiras. Foi nesse espaço que a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais seguiu tocando e que muitos espetáculos encontraram abrigo.

Foi também ali que estreei o show “Nada será como antes — Canções do Clube da Esquina”, ao lado de Graziela Cruz, Regina Milagres, Wagner Cosse e músicos convidados. O musical celebrava os 25 anos do movimento mais importante da música mineira e acabou sendo a semente de um projeto futuro, que incluiu a gravação de um disco, turnês e encontros memoráveis com Milton Nascimento, Fernando Brant, Toninho Horta e sua turma.

 

A grande reabertura: emoção coletiva

Em 27 de julho de 1998, o Palácio das Artes foi reinaugurado com uma apresentação do Grupo Corpo. Eu estava lá — arrepiado, emocionado, sentindo que parte da cultura mineira voltava a respirar.

O novo Grande Teatro estava transformado: novas poltronas, decoração renovada e equipamentos de ponta que o colocavam dentre os melhores do país naquela época.

 

Quarenta dias de maratona cultural

Vieram então 40 dias de programação gratuita: concertos, balés, shows e teatro. Para o público, um presente; para nós, da Comunicação, uma maratona quase enlouquecedora.

As filas davam voltas pela Afonso Pena. Meu setor trabalhava sem trégua divulgando cada evento. No fim, eu estava sem voz, exausto — e quase sem sanidade mental.

 

Os porões, a umidade e o corpo cobrando a conta

Durante a reforma, nossa sala nos porões do teatro sofria com infiltrações e umidade. Ali nasceu (ou se agravou) a rinite alérgica que carrego até hoje.

Quando finalmente tirei férias, passei quase um mês tossindo e espirrando, como se meu corpo estivesse expelindo todo o estresse acumulado.

 

Três anos que marcaram uma vida

Fiquei no Palácio das Artes até o final do segundo semestre de 1999. Nesses quase três anos, conheci excelentes profissionais, alguns dos quais ainda mantenho laços de amizade até hoje. Tive a oportunidade de assistir a ótimos espetáculos, tanto dos corpos estáveis da Fundação quanto de artistas de projeção nacional, como Caetano Veloso e Maria Bethânia, para citar alguns. Também convivi com escritores, artistas plásticos, cineastas, atores, produtores culturais e outros profissionais da área. Trabalhei em suntuosas montagens operísticas que caracterizam aquele espaço.

Ali foi a base de meu trabalho como assessor de imprensa na área cultural, pois conheci os melhores e mais importantes jornalistas e veículos de comunicação.

 

O que veio depois — e o que ficou

Quando me desliguei da fundação, iniciei imediatamente a gravação do disco em homenagem ao Clube da Esquina, fruto daquele show realizado durante o período da reconstrução. Engatei uma série de projetos artísticos e musicais que me ajudaram a consolidar minha carreira profissional e a entender qual era uma das minhas missões neste mundo.

 

Veja mais em:

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/mg1/video/reabertura-do-grande-teatro-do-palacio-das-artes-apos-incendio-completa-20-anos-6902511.ghtml

 

Na foto, o presidente de Palácio das Artes, Fernando Pinheiro (gravata preta) 
e eu, ao fundo, durante uma coletiva para a imprensa

Com Angelina, Relações Públicas, no dia de reinauguração

Com Bernardo e Júnia, na sala da Comunicação

Equipe da administração do Palácio das Artes: jornalistas, publicitários,
relações públicas, gestores culturais e artistas

Com Junia, Renata e Giovanni (óculos): equipe de Comunicação

Turma reunida para a foto: trabalho, diversão e arte

Outra foto da reinauguração: Giovanni e Renata (Publicidade),
eu, Andreia Castelo Branco (jornalismo), Eduardo (Publicidade),
Romulo Avelar (diretor do nosso setor), Vera Schapper (secretária)
e Fernando Pinheiro (presidente da FCS)



O incêndio do Palácio das Artes em 1997: eu estava lá!

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