Desde 1986, quando a poeta mineira Adélia Prado lançou seu primeiro livro, Bagagem, acompanho seu trabalho e possuo todos os seus livros.
Sua poética me toca profundamente, tanto pelos laços que nos unem por termos nascido em Minas Gerais quanto porque muitas de suas vivências em Divinópolis (cidade onde nasceu e passou toda a vida) muito se assemelham às histórias de Itabirito (MG), minha terra natal.
Anjos que coroam Nossa Senhora, o barulho do trem cortando a cidade, as fofocas de esquina, os causos engraçados que pululam aqui e acolá e, principalmente, os personagens interioranos. Em Itabirito, na época em que havia catálogo telefônico, chegou-se a cogitar a publicação de um livro apenas com os apelidos dos moradores, pois poucos conheciam os nomes verdadeiros das pessoas. Coisas de cidades pequenas.
Tive a oportunidade de assistir a Adélia Prado ao vivo em várias ocasiões. Lembro-me de quando ela esteve no Cine Belas Artes, em Belo Horizonte, há pelo menos duas décadas, falando sobre sua vida e lendo alguns de seus poemas. E também da reação da plateia, extasiada, diante das imagens poéticas que ela criava.
Foi igualmente inesquecível quando a atriz Fernanda Montenegro levou aos palcos o monólogo Dona Doida, no qual declamava versos da poeta. Tive o privilégio de assistir à montagem no Teatro da Ópera, em Ouro Preto, uma das mais encantadoras salas de espetáculo do país. Guardo até hoje o programa com o autógrafo da aclamada atriz.
Em 1991, quando editava o Jornal Imagens, em Itabirito, vislumbrei a possibilidade de realizar uma entrevista com Adélia. Consegui seu contato e enviei as perguntas pelo Correio — na época, ainda não existiam mensagens de celular. O tempo passou, e nada das respostas. Eu já estava quase desistindo quando chegou uma carta da autora, trazendo as respostas manuscritas. Na correspondência, ela se desculpava pela demora, causada por compromissos profissionais.
É indescritível a emoção que senti ao receber aquela carta. E ainda maior por ela ter respondido de próprio punho. Respostas poéticas, na maioria das vezes, revelando que ela era intensa até mesmo nas situações mais corriqueiras. Questionei de onde vinha sua inspiração, e ela me respondeu:
"Literatura não é artesanato. (...) Como surge? Não saberia dizer, mas afirmo que é um estado de alegria que pede expressão."
Em 2005, quando tive a oportunidade de assumir o cargo de gestor cultural na Prefeitura de Itabirito, imaginei criar um projeto voltado para a difusão da literatura. Pensei imediatamente em Adélia Prado. Eu tinha seu contato e tratei de organizar toda a produção do evento.
Adélia chegou ao local da palestra, o Cine Teatro Pax, e ficou surpresa ao ver tanta gente presente: cerca de 700 pessoas. Ela me disse que era a primeira vez que falava para um grupo tão numeroso. E foi sublime. Depois, pacientemente, atendeu aos leitores, deixando-se fotografar com eles e autografando alguns de seus livros, que estavam à venda no local.
Para coroar sua estadia em terras itabiritenses, recebi uma solicitação da Rede Minas de Televisão para gravar um especial com Adélia na cidade. O canal produzia um programa sobre literatura e, até então, nunca havia conseguido entrevistá-la. A poeta concordou com a entrevista, mas fiz apenas uma exigência: que ela fosse realizada na Estação Ferroviária de Itabirito, tendo ao fundo o nome da cidade. E assim foi feito.
Recentemente, ao organizar meus documentos antigos, encontrei a carta manuscrita por Adélia, respondendo às perguntas do Jornal Imagens. O turbilhão de emoções veio à tona e deu origem a este texto.
Viva Adélia! Viva a poesia brasileira!

Adélia e equipe da Rede Minas em Itabirito
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| Equipe da TV. Eu estou à esquerda da foto, de óculos escuros |
| Adélia recebe leitores para autógrafos |
| Eu com a equipe da prefeitura, Adélia e seu marido, José |


Que lindo texto da história de Adélia Prado. Thelmo, você é um baú cultural, desde bem jovem já envolvido com grades nomes da arte. Ela é uma poetisa respeitável. "O que a memória ama fica eterno..." ❤️
ResponderExcluirAgradecido, Ana. Grande abraço
ExcluirGratidão por compartilhar tão lindas histórias conosco, Thelmo Lins.
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