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sábado, 27 de junho de 2026

Adélia e eu

 


Desde 1986, quando a poeta mineira Adélia Prado lançou seu primeiro livro, Bagagem, acompanho seu trabalho e possuo todos os seus livros.

Sua poética me toca profundamente, tanto pelos laços que nos unem por termos nascido em Minas Gerais quanto porque muitas de suas vivências em Divinópolis (cidade onde nasceu e passou toda a vida) muito se assemelham às histórias de Itabirito (MG), minha terra natal.

Anjos que coroam Nossa Senhora, o barulho do trem cortando a cidade, as fofocas de esquina, os causos engraçados que pululam aqui e acolá e, principalmente, os personagens interioranos. Em Itabirito, na época em que havia catálogo telefônico, chegou-se a cogitar a publicação de um livro apenas com os apelidos dos moradores, pois poucos conheciam os nomes verdadeiros das pessoas. Coisas de cidades pequenas.

Tive a oportunidade de assistir a Adélia Prado ao vivo em várias ocasiões. Lembro-me de quando ela esteve no Cine Belas Artes, em Belo Horizonte, há pelo menos duas décadas, falando sobre sua vida e lendo alguns de seus poemas. E também da reação da plateia, extasiada, diante das imagens poéticas que ela criava.

Foi igualmente inesquecível quando a atriz Fernanda Montenegro levou aos palcos o monólogo Dona Doida, no qual declamava versos da poeta. Tive o privilégio de assistir à montagem no Teatro da Ópera, em Ouro Preto, uma das mais encantadoras salas de espetáculo do país. Guardo até hoje o programa com o autógrafo da aclamada atriz.

Em 1991, quando editava o Jornal Imagens, em Itabirito, vislumbrei a possibilidade de realizar uma entrevista com Adélia. Consegui seu contato e enviei as perguntas pelo Correio — na época, ainda não existiam mensagens de celular. O tempo passou, e nada das respostas. Eu já estava quase desistindo quando chegou uma carta da autora, trazendo as respostas manuscritas. Na correspondência, ela se desculpava pela demora, causada por compromissos profissionais.

É indescritível a emoção que senti ao receber aquela carta. E ainda maior por ela ter respondido de próprio punho. Respostas poéticas, na maioria das vezes, revelando que ela era intensa até mesmo nas situações mais corriqueiras. Questionei de onde vinha sua inspiração, e ela me respondeu:

"Literatura não é artesanato. (...) Como surge? Não saberia dizer, mas afirmo que é um estado de alegria que pede expressão."

Em 2005, quando tive a oportunidade de assumir o cargo de gestor cultural na Prefeitura de Itabirito, imaginei criar um projeto voltado para a difusão da literatura. Pensei imediatamente em Adélia Prado. Eu tinha seu contato e tratei de organizar toda a produção do evento.

Adélia chegou ao local da palestra, o Cine Teatro Pax, e ficou surpresa ao ver tanta gente presente: cerca de 700 pessoas. Ela me disse que era a primeira vez que falava para um grupo tão numeroso. E foi sublime. Depois, pacientemente, atendeu aos leitores, deixando-se fotografar com eles e autografando alguns de seus livros, que estavam à venda no local.

Para coroar sua estadia em terras itabiritenses, recebi uma solicitação da Rede Minas de Televisão para gravar um especial com Adélia na cidade. O canal produzia um programa sobre literatura e, até então, nunca havia conseguido entrevistá-la. A poeta concordou com a entrevista, mas fiz apenas uma exigência: que ela fosse realizada na Estação Ferroviária de Itabirito, tendo ao fundo o nome da cidade. E assim foi feito.

Recentemente, ao organizar meus documentos antigos, encontrei a carta manuscrita por Adélia, respondendo às perguntas do Jornal Imagens. O turbilhão de emoções veio à tona e deu origem a este texto.

Viva Adélia! Viva a poesia brasileira!

Adélia e equipe da Rede Minas em Itabirito


Equipe da TV. Eu estou à esquerda da foto, de óculos escuros

Adélia recebe leitores para autógrafos


Eu com a equipe da prefeitura, Adélia e seu marido, José



terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O dia em que Elis morreu

Aos 18 anos, eu estava em Paraty quando Elis Regina morreu.
Arte @thelmolins

    No dia 19 de janeiro de 1982, a cantora Elis Regina morreu. Portanto, há 40 anos! Viajei no passado e me lembrei de fatos que aconteceram na época. A notícia deixou todo o país estupefato, considerando que ela era, naquela época, uma das cantoras de maior visibilidade na mídia nacional e internacional.
    
    Eu estava em Paraty, cidade histórica do litoral fluminense, quando soube do acontecimento. Era a primeira vez que eu visitava o local, ao lado de várias queridas amigas*. Estávamos acampados em um terreno na área central do município. Eu tinha apenas 18 anos. Passamos o dia inteiro passeando pelas praias da região. Ao chegarmos no local do acampamento, foi que soubemos do acontecimento.

    Ficamos sem chão. Para homenageá-la, entoei, enquanto me banhava, alguns de seus sucessos, a todos pulmões. Não economizei na cantoria. Dá-lhe “O Bêbado e a Equilibrista”, “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, “Casa de Campo”, dentre outros. “Caiiiiiia a tarde feito um viaduuuuuto...!!!” Para piorar, a água do chuveiro ela gelada, o que sempre provocava em todos nós um choque inicial, que vinha acompanhado por um berro. 

    À noite, ousei pedir aos donos da casa para assistir ao Jornal Nacional, porque queríamos saber das notícias. Na barraca, com certeza, não tinha nem rádio nem TV. Os proprietários concordaram. Estávamos tão chocados que nem notamos que estávamos ocupando todos os sofás na sala de estar, deixando os familiares de pé e sem saber o que fazer. “Que povo inconveniente”, devem ter pensado.

    Alheios a este sentimento, acompanhamos todo o noticiário. A primeira reportagem era sobre o desabamento de uma passarela em Foz do Iguaçu, que havia feito várias vítimas. O teor da enxurrada e da tempestade se confundia com as súplicas dos visitantes. O último assunto foi o falecimento da grande cantora. À medida que a reportagem avançava, ficávamos mais à vontade ainda e deixamos desabar o nosso pranto, cada vez mais contundente, como se fosse um parente que estivesse passando por aquela situação. As lágrimas rolavam aos borbotões. Somente quando o jornal finalizou é que percebemos, ao olhar para trás, que o pessoal da casa nos olhava de cara fechada. 

    Inconvenientes ou não, estávamos diante de uma morte trágica. Elis tinha apenas 35 anos! Como amantes da música brasileira, aquele dia se tornou para sempre inesquecível. Era impossível não nos emocionarmos. Anos mais tarde, também em Paraty, vivenciei a queda das Torres Gêmeas, mas isso é assunto para outra postagem. 

 * Minhas companheiras de viagem foram: Tuta, Beth, Mariângela, Valéria e Claudia.

Adélia e eu

  Desde 1986, quando a poeta mineira Adélia Prado lançou seu primeiro livro, Bagagem , acompanho seu trabalho e possuo todos os seus livros...