Confira as fotos de Júlia Batista (Tuta) no final deste texto.
Algumas fotos foram atualizadas com I.A.
Em janeiro de 1989, em pleno verão, realizei uma
empreitada automobilística de Itabirito, centro de Minas Gerais (minha terra
natal), até o sul do país, ao lado de minha tia e madrinha Terezinha Gonçalves e
de minha querida amiga Júlia Batista, a Tuta. A ideia original era chegar até
Gramado, no Rio Grande do Sul. Um precioso detalhe: de Fusca!
Eu tinha um fusquinha branco, ano 1981, em bom
estado. Mandei fazer uma revisão geral para evitar problemas. Afinal, o trajeto
cumpriria cerca de 4.000 km, ida e volta.
Os primeiros sinais de que não seria
fácil
O carro, no entanto, começou a dar sinais de
desgaste já em Pouso Alegre, no sul de Minas, com menos de 400 quilômetros
desde o início da viagem. A duras penas, chegamos a Vinhedo, no interior de São
Paulo, próximo a Campinas, onde viviam Valéria (irmã de Tuta) e Paulo, seu
marido. Lá passamos alguns dias, enquanto o carro era novamente revisado em uma
oficina local.
O mecânico constatou que o motor estava
superaquecendo. Trocou algumas peças, refez a revisão geral e afirmou que o
fusquinha já estava pronto para enfrentar a nova etapa da viagem.
A temida Régis Bittencourt
E lá saímos em direção à BR-116 (Rodovia Régis
Bittencourt), naquela época conhecida como a Rodovia da Morte. A estrada ligava
São Paulo a Curitiba. Logo verificamos o porquê do apelido. Com apenas duas
pistas e quase sem acostamento, trafegar por ali era uma luta constante com
carretas gigantescas. Em determinado momento, vinham vários caminhões na
contramão, e tivemos de jogar o fusquinha no acostamento para nos livrar de uma
batida que poderia ser fatal.
Estradas alternativas, chuva e oração
Ainda no estado de São
Paulo, fizemos um desvio por uma estrada que passava por Sorocaba e outras
cidades próximas, com a intenção de fazer parte do trajeto fora da Régis
Bittencourt. Se, por um lado, as estradinhas estavam menos movimentadas e eram
muito bonitas, por outro, apresentavam muitas curvas, o que aumentou
sensivelmente a duração da viagem. Era janeiro e, por isso, chovia muito em
alguns trechos.
Muito religiosa (e, com certeza, apavorada com a
situação), minha tia Terezinha por vezes puxava um terço, quase sussurrando as
orações, como forma de enfrentar o perigo. E lá vinham o “Pai-Nosso”, a
“Ave-Maria” e o “Credo”. No final das contas, acabamos aprendendo e rezando
algumas partes com ela.
Curitiba: capô aberto e alertas na
estrada
Faltando pouco para chegar a Curitiba, o Fusca
começou a falhar novamente. Descobrimos que, quando abríamos a tampa do motor,
o vento externo ajudava a refrigerá-lo e, assim, o carro não morria. Fomos até
a capital paranaense com o capô levantado, sem maiores problemas. No entanto, a
maioria dos motoristas que nos ultrapassava nos alertava sobre a abertura por
meio de buzinas e sinais. E nós agradecíamos o insistente “aviso”. No final, já
achávamos engraçada a situação.
No Paraná, fizemos uma parada em Curitiba, onde nos
hospedamos. A ideia era conhecer um pouco da capital e, depois, pegar o trem
turístico que ligava a cidade ao município de Morretes. Esse trecho ferroviário
é reconhecido como um dos mais belos — se não o mais belo — do país.
O trem da Serra do Mar
O trem sai da estação de Curitiba bem cedinho,
antes do café da manhã, com o objetivo de chegar a Morretes por volta do
horário do almoço. São quatro horas e meia de viagem, atravessando a Serra do
Mar, em uma paisagem de tirar o fôlego, entre cachoeiras, matas virgens e
alguns desfiladeiros impressionantes. O visual é incrível.
No interior dos vagões, havia uma briga constante
para se ter acesso às janelas mais panorâmicas, de onde se podiam obter as
melhores vistas. Naquela época (não sei como é atualmente), havia vendedores de
alimentos no trem, muito assediados, pois todos estavam sem se alimentar desde
cedo.
Morretes e o inesperado “tempero” do
barreado
Passado o deslumbre do caminho férreo, chegamos a
Morretes (PR), cidade do famoso barreado, um prato típico local. Obviamente,
queríamos experimentá-lo, mesmo sem saber exatamente do que se tratava. Em
resumo, trata-se basicamente de carne cozida e desfiada com farinha de
mandioca, entre outros ingredientes.
Quando o prato chegou, descobrimos que não era um
alimento adequado ao verão, pois era servido quentíssimo. Como a temperatura já
estava muito alta, suamos para dar conta do recado. Em determinado momento,
Tuta encontrou um fiapo de “carne” amarelada. E veio outro, e mais outro... Não
deu outra: era cabelo. E cabelo louro! Foi aí que descobrimos que uma das
cozinheiras era uma típica lourinha do sul do Brasil e que, com certeza, seus
cabelos dourados estavam proporcionando um “sabor especial” àquela iguaria.
Levamos tudo na esportiva e morremos de rir da situação, pois nem se falava em
touca naquela época.
São Francisco do Sul: pousada, lesmas e
pernilongos
De Morretes, pegamos o Fusca novamente e fomos para
Santa Catarina, mais especificamente para São Francisco do Sul, cidade
histórica portuária na divisa com o Paraná. Lembro que não existia internet e
muito menos sites de busca de hotéis. Assim, a norma era chegar à cidade e
procurar um lugar para ficar. Já era noite quando chegamos, sem saber onde
pernoitaríamos. Depois de procurar em vários locais, encontramos quase todos
lotados. Finalmente, conseguimos uma pousada não muito atraente, mas que
serviria como solução, pelo menos naquele momento, pois já estávamos cansados
pela viagem e pela busca.
Ficamos em dois cômodos canhestros que, em breve,
descobrimos estar cheios de lesmas, daquelas que ficam se arrastando pelas
paredes. Então, juntamos as camas no centro do quarto para não sermos abordados
por aquelas criaturas enquanto dormíamos. Mesmo assim, deixamos as luzes acesas
para evitar quaisquer problemas.
Como o calor era intenso e não havia
ar-condicionado nem mesmo um ventilador, resolvemos abrir as janelas. Nesse
momento, todos os pernilongos do mundo invadiram os cômodos. Tentei eliminá-los
com uma camiseta, mas foi em vão.
Quando pensávamos que nada poderia piorar,
descobrimos que o local era uma “casa de tolerância”, vulgo prostíbulo. A
movimentação durante a noite era intensa nos outros quartos, com entradas e
saídas de casais a todo momento. Resumindo: não dormimos nada e acordamos
completamente exaustos!
Depois de dar uma volta por São Francisco do Sul
para conhecer um pouco da arquitetura local, partimos para Joinville, cidade
maior e com mais recursos. O objetivo era encontrar um hotel com
ar-condicionado e, pelo menos naquela tarde, dormir até recuperar as energias
para retomar a viagem.
Joinville e o choque cultural
gastronômico
Foi em Joinville que tive meu primeiro contato com
a comida alemã. Foi um desastre! Quando o prato chegou, com aquele pé de porco,
eu não conseguia nem olhar. Além disso, o chucrute tinha um cheiro muito forte
e azedo. Enjoado como sou, não consegui comer nada.
Percorrendo cidades catarinenses
Nos dias seguintes, passamos por várias cidades
catarinenses: Blumenau, Pomerode, Florianópolis e, claro, várias belíssimas
praias daquele litoral, até chegar a Laguna, quase na divisa com o Rio Grande
do Sul.
Devido aos constantes problemas mecânicos no carro,
resolvemos que ali seria a parada final da viagem, antes do retorno. Não seria
prudente subir a serra gaúcha naquelas condições.
Laguna: serenidade e história
De Laguna, a lembrança é de que foi um dos lugares
mais serenos por onde passamos em toda a viagem. Conseguimos um hotel que
ficava em um morro, de onde se podia apreciar uma bela vista do mar. Eram
chalés de madeira, simples, mas confortáveis, adequados àquele tempo em que não
tínhamos muito dinheiro para investir em hospedagem. Dali se via o pôr do sol,
os golfinhos que costumam se aglomerar na orla lagunense e o mar.
A cidade é terra natal de Anita Garibaldi
(1821–1849), uma mulher de grande importância na história nacional. Apesar de
ter morrido muito jovem, viveu uma vida revolucionária, atuando na Revolução
Farroupilha. Foi casada com Giuseppe Garibaldi (1807–1882), com quem lutou pela
unificação da Itália. Assim, tornou-se heroína tanto no Brasil quanto no país
europeu.
O retorno e o susto final
Não me lembro de mais nada, além do fato de que, na
volta, depois de deixarmos Tuta em Belo Horizonte, onde morava na época,
Terezinha e eu tomamos o rumo de Itabirito. Na estrada, não sei se por cansaço
ou outro motivo, quase joguei o pobre fusquinha sobre o canteiro central da
rodovia. O carro rodopiou e quase capotou, mas logo retomei a direção e,
felizmente, conseguimos finalizar o trecho final sem novo incidente.
Slides, memórias e afetos
Atualmente, vasculhando minhas gavetas, encontrei
slides (isso mesmo, slides!), que era como Tuta revelava suas fotos naquela
época. Adquiri um equipamento que faz a leitura e os transforma em imagens
digitais. Assim, as imagens dessa viagem voltaram à tona, vívidas e
emocionantes.
Foi a única viagem que fiz com minha tia Terezinha
(1931–1991), naquela época já com problemas de saúde que a levariam poucos anos
depois. Confesso que não sei como ela sobreviveu a tantos percalços. No
entanto, hoje, as imagens e as memórias reverenciam aquela que foi uma das
pessoas fundamentais para a minha formação humana e acadêmica. Sua coleção de
livros, seu tino de pedagoga e seu olhar terno de madrinha ajudaram a me tornar
quem sou. Foi ela quem me apresentou as histórias em quadrinhos, que muito me
ajudaram a amar a leitura.
De Tuta, companheira de longas viagens e de muitos
papos e conversas, ainda me encontro sempre que posso: ela em Itabirito, eu em
Belo Horizonte. E, todas as vezes, parece que não deixamos de nos ver sequer
por um dia. As conversas fluem, as risadas são retomadas e as lembranças
afloram.
Um tempo de ingenuidade e muita ousadia
Registro esses momentos eternos em minha memória
como um tempo, de certa forma, ingênuo, mas também de grande ousadia. Considero-me
um viajante, e essas primeiras experiências me marcaram profundamente.
| No litoral catarinense |
| Joinville |
| São Francisco do Sul |
| No restaurante alemão, com Terezinha |
| Com Terezinha em Pomerode (SC) |
| Edifício histórico em Laguna (SC) |
| Com Terezinha e Tuta, no hotel em Laguna (SC) |
| São Francisco do Sul |
| Tentanto consertar o Fusca |
| Em Pomerode (SC) |
| Desmaiados em Joiville, depois da noite caótica em SC |
| Área de restaurantes em Pomerode (SC) |








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